Armada do Estreito de Magalhães (1581-1584)

Em 1520, o navegador português Fernão de Magalhães, no comando de uma pequena frota espanhola, utilizou pela primeira vez uma rota marítima no extremo sul do continente americano que conectava os oceanos Atlântico e Pacífico. A comprovação da existência desta passagem interoceânica que ficou conhecida pelo nome de Estreito de Magalhães, em homenagem ao navegador lusitano, demonstrou que todos os continentes estariam unidos pelo mar.

Durante o período da união dinástica, os reinos de Portugal e Castela se alinharam, compartilhando, dentre outras coisas, aspectos relacionados à melhor forma de defender seus territórios americanos. A ampliação de uma estratégia voltada para o Atlântico foi reforçada com a incorporação de novos súditos. O Estreito de Magalhães devido a sua localização estratégica, aliado ao monopólio comercial e político da região, representava um importante espaço a ser defendido já que protegeria, ao mesmo tempo, os oceanos Atlântico e Pacífico da presença das nações rivais. No entanto, a sua posição geográfica trazia consigo outros problemas já que a região era de difícil navegação. Esse obstáculo encontrado no “Estrecho de la muerte[1]”, como denominou o poeta espanhol Lope de Vega, fez com que a ocupação da região não avançasse. Após o seu descobrimento, as expedições empreendidas ao Estreito foram apenas de reconhecimento, devido à dificuldade de adentrar no território.

O Estreito de Magalhães, relativamente esquecido durante o reinado de Carlos V, tornou-se uma questão importante para Felipe II devido à passagem de Francis Drake pela região. O corsário inglês, em 1579, alcançou o oceano Pacífico atravessando, no sentido leste-oeste, o Estreito de Magalhães. Ao encontrar desguarnecidas as costas das possessões castelhanas na região, Drake investiu contra portos no Chile e no Peru. Foi quando Felipe II, em 1581, ordenou que fossem construídos dois fortes na região “para la seguridad del Estrecho de Magallanes y para que los corsarios que le han descubierto no se apoderen de él, como se entiende que procuran hacerlo[2]”.

Pedro Sarmiento de Gamboa, navegador espanhol, foi nomeado por Felipe II governador das terras do Estreito de Magalhães, em uma expedição que sairia da Espanha em direção ao extremo sul do continente americano. Sarmiento, principal articulador da missão ao Estreito, ocuparia o cargo quando ocorresse a povoação do território. Sarmiento seria responsável pelos colonos que se fixariam na região e pela construção de fortes na entrada atlântica do Estreito. O porte da empresa marítima requeria um comandante qualificado, o que fez Felipe II decidir-se pelo capitão-general Diego Flores de Valdés, um dos mais destacados e experientes navegadores da armada da Espanha, com mais de trinta anos a serviços da Coroa.

Os preparativos para a Armada do Estreito de Magalhães duraram toda a primeira metade de 1581. As armadas militares do período dos Habsburgo representavam projetos concretos de ação política. Não havia uma armada real, única e principal, designada como tal, mas múltiplas missões, com objetivos e financiamentos distintos. As armadas se organizavam de forma transitória quase sempre em localidades que ameaçavam a soberania da monarquia, como era o caso do Estreito de Magalhães. Embora a construção dos fortes e a colonização das terras do Estreito constassem expressamente nas recomendações reais[3], o caráter militar da jornada era predominante e a armada deveria priorizar a perseguição e punição aos corsários e a destruição de quaisquer lugares fortificados que por eles tivessem sido estabelecido em toda costa atlântica. 

Conforme as instruções do rei, o verdadeiro escopo da expedição deveria ser mantido em sigilo, tanto para que a empresa não chegasse ao conhecimento das nações não-ibéricas, como para não dificultar o recrutamento daqueles que embarcariam, considerando que já eram conhecidas pelos marinheiros as condições adversas nas proximidades do Estreito. Os maiores entraves aos trabalhos de preparação da expedição foram decorrentes da escassez de recursos da Coroa para viabilizar as artilharias e os equipamentos necessários ao empreendimento. No entanto, para Pierre Chaunu, o insuficiente número de embarcações das frotas espanholas do Atlântico para o atendimento das demandas da empresa teria causado maiores empecilhos na montagem da expedição do que as dificuldades financeiras por que passava o Reino na época (Chaunu, 1955: 295-296).

A arregimentação de cerca de dois mil e quinhentos homens para a Armada do Estreito sofreu várias atribulações, considerando-se que muitos deles serviam nas tropas que a Espanha mantinha na Itália e Flandres e um expressivo contingente participava, na época, das frotas comerciais espanholas. A baixa remuneração e o sigilo que cercava a empresa, com a possibilidade de uma perigosa jornada, desestimulavam o recrutamento. Documentos coetâneos demonstram que componentes de frotas que retornavam à Espanha tiveram que ser transferidos, à força, das naus em que se encontravam para as embarcações da armada, e, um grupo de 280 recrutados teve que ficar aprisionado, para evitar que os soldados desertassem, até que houvesse a partida da expedição (Phillips, 2016: 26).

Finalmente, a armada foi constituída por 23 naus, sendo que apenas quatro embarcações pertenciam à Coroa. As demais foram alugadas aos seus proprietários mediante pagamento mensal com base na capacidade em tonelagem das embarcações, totalizando 8.400 toneladas contratadas. Foram arregimentados 1.332 soldados, 672 marinheiros, 670 homens que iam para o Chile com governador do território, 206 colonos com mulheres e filhos que se estabeleceriam no Estreito, mais artilheiros, ferreiros, carpinteiros e outros. O almirante, segundo posto da armada, era Diego de la Rivera[4], asturiano como também era grande parte dos componentes da armada. Do estado maior da expedição participavam Diego Flores de Valdés, Pedro Sarmiento, o governador do Chile, Alonso de Sotomayor[5], além de oficiais reais, auditor, provedor, escrivão, frades e o engenheiro Bautista Antonelli. Totalizavam cerca de 3.500 pessoas[6].

Após vários atrasos e atendendo determinação do rei para que a armada iniciasse a viagem o mais breve possível, o Duque de Medina Sidonia, capitán general del mar de Andalucia, estabeleceu a data da partida da expedição para 25 de setembro de 1581, saindo do porto de Sanlúcar de Barrameda, base das operações da expedição. Até então, o destino da esquadra era desconhecido da maioria dos que iam viajar. A data escolhida desconsiderou advertências que foram feitas pelos pilotos sobre a impropriedade daquela decisão, em razão de que os dias seguintes ao equinócio teriam maior incidência de fortes tempestades. 

Cinco naus saíram ao mar no dia 25 de setembro, seis no dia seguinte, e, no dia 27, a galeaza capitana e as demais embarcações da esquadra deixaram o porto de Sanlúcar de Barrameda. Após seis dias de navegação com ventos favoráveis, quando a esquadra se encontrava nas proximidades de Cádiz, cerca de 110 milhas de Sanlúcar, uma forte tempestade trouxe danosas consequências para a expedição. Houve o naufrágio de quatro embarcações e muitas naus danificadas. Segundo Pedro Sarmiento de Gamboa, morreram aproximadamente 800 pessoas naquela tragédia. Foram perdidas ainda provisões, armamentos e munições. A desventura atingiu diretamente Diego Flores de Valdés, pois no episódio morreram vários familiares seus e militares que o acompanhavam, havia anos, na vida do mar (Sarmiento de Gamboa, 1895: 234).

De volta a Cádiz, os trabalhos de recuperação das naus e de recomposição do abastecimento da frota, munições e armamentos perdidos durante a tempestade, se estenderam até meados de novembro. No dia 23 de novembro, Felipe II determinou a partida da expedição com destino ao Rio de Janeiro, onde deveria permanecer até outubro do ano seguinte, aguardando condições favoráveis de navegação para o Estreito. Tudo estava preparado para que a frota deixasse a baía de Cádiz no dia 2 de dezembro. Quando todos já estavam embarcados, iniciou-se uma forte tempestade que durou quatro dias, atingindo as naus com tamanha intensidade que a fragata Guadalupe foi a pique. Com a melhoria do tempo, a expedição, enfim, partiu de Cádiz na manhã do dia 9 de dezembro. A armada do Estreito de Magalhães estava, então, resumida a dezesseis embarcações com 2.408 pessoas a bordo (Phillips, 2016: 37).

Após um mês de navegação, a armada aportou na ilha de Santiago, no Cabo Verde, ponto de parada das naus que cruzavam o Atlântico. Considerando que a expedição ia demorar alguns dias em Santiago e estava no local uma caravela de partida para o Brasil, Diego Flores de Valdés, atentando para a principal finalidade da expedição, enviou cartas para os governadores da Bahia e Pernambuco. O teor das correspondências se referia, especificamente, a pedidos de informações sobre o estado das costas brasileiras com relação a incursões corsárias e pacificação das terras. Os governantes deveriam enviar as notícias para o Rio de Janeiro para onde, em seguida, a armada se deslocaria[7]. É patente, mesmo antes de chegar ao Brasil, a preocupação de Valdés com o estado da costa brasileira, alvo das investidas de franceses em busca de pau-brasil. 

Com o reforço de provisões (e deserções), a armada deixou o Cabo Verde no dia 2 de fevereiro de 1582. Depois de 53 dias de navegação, com muitos enfermos e mais de 150 mortos no percurso, por doenças relacionadas à precária alimentação e condições de salubridade das naus, a esquadra chegou ao Rio de Janeiro que, naquele momento, era uma pequena povoação sem muitos recursos para receber um contingente tão elevado de pessoas. Com muitos doentes na armada, seguindo o relato de Sarmiento, os colonos que viviam na povoação se ofereceram para tratar dos enfermos. Mesmo com toda a ajuda, 150 morreram e outros, vendo a situação, desertaram (Sarmiento de Gamboa, 1895: 242). Diego Flores de Valdés, considerando a precariedade do lugar para suprir as necessidades da armada durante o período em que ficariam aguardando a partida para o sul do Atlântico, enviou uma missão para a então mais abastada e antiga cidade de São Vicente para obter as provisões requeridas (Vilardaga, 2010: 67). A armada permaneceu no Rio de Janeiro por mais de sete meses pois, aguardava, além do tempo propício para continuar a viagem para o Estreito, o reforço de suprimentos prometido por Felipe II, quando da partida da armada da Espanha. 

Finalmente chegou ao Rio de Janeiro a frota de provisões e suprimentos comandada pelo capitão general Diego de Alcega. Os principais comandantes da expedição decidiram que uma nova tentativa de levar Pedro Sarmiento e seus colonos para o Estreito seria feita com parte da armada com 5 naus sob o comando do almirante Diego de la Rivera e com o acréscimo de 500 homens, além de 140 colonos de Sarmiento. Apesar do verão, as condições climáticas impediram a entrada das embarcações na boca do Estreito. Mais uma vez, terminou frustrada a segunda tentativa de desembarque de Pedro Sarmiento e seus colonos no Estreito de Magalhães. Concomitantemente a isso, Diego Flores de Valdés navegaria para Bahia, como já previsto, para combater os franceses que haviam se instalado na Paraíba (Phillips, 2016: 44-46). A conquista da Paraíba, intentada tantas vezes pelos portugueses, só conseguiu obter sucesso com a atuação da Armada do Estreito, organizada como uma iniciativa dos Habsburgo. Por sua localização geográfica privilegiada, a Paraíba representava um importante vetor militar da planificação defensiva dos Habsburgo.

A Armada do Estreito de Magalhães obteve sucesso fora do Estreito. Constava em seus objetivos defender o território continental americano contra a ameaça dos corsários e garantir a lealdade do Brasil a Felipe II. Estudar a Armada do Estreito é compreender a importância histórica das lutas pela defesa dos territórios americanos no hemisfério sul que quase sempre foi tratado de forma secundária dentro desse grande mosaico que era a Monarquia Hispânica.


[1] “La Dragontea” (1598), Lope de Vega.

[2] AGS, Archivo General de Simancas, Mar y Tierra, legajo 117.

[3] AGI, Archivo General de Indias, Real Cédula. Indiferente, 582, L. 1, f. 29v-31v.

[4] AGI, Archivo General de Indias, Real Cédula. Indiferente 582, L. 1, f. 33-33v.

[5] AGI, Archivo General de Indias, Real Cédula. Indiferente, 582, L.1, f.29v.

[6] AGI, Archivo General de Indias, Consulta del Consejo de Indias. Indiferente, 739, N. 306.

[7] HL, Huntington Library, Relación de Pedro de Rada. MS HM 59416, f. 7v.

BIBLIOGRAFIA

  • Brito, S. B. R. (2020). A conquista do rio ruim. A Paraíba na Monarquia Hispânica (1570-1630). Tese de Doutorado, Universidade de Salamanca, Salamanca.
  • Chaunu, P.; Chaunu, H. (1955). Huguette Chaunu. Seville et l’Atlantique, 1504-1650. Vol 3. Paris: Armand Colin.
  • Fernandez Duro, C. (1897). Historia de la Armada española desde la unión de los Reinos de Castilla y Aragón. Tomo II. Madrid: Establecimiento tipográfico Suc. Rivadeneyra.
  • Phillips, C. R. (2016). The struggle for the South Atlantic: the Armada of the Strait, 1581-1584. Abingdon, Oxon; New York, NY: Routledge, for the Hakluyt Society.
  • Sarmiento de Gamboa, P. (1895). Narratives of Voyages to the Straits of  Magellan, translated and edited with notes and an introduction by Clemens R. Markham. C.B., F.R.S. London: Hakluyt Society.
  • Vilardaga, J. C. (2010). São Paulo na órbita do império dos Felipes: conexões castelhanas de uma vila da América portuguesa durante a União Ibérica (1580-1640). Tese de doutorado apresentada à Universidade de São Paulo.

Autor:

Sylvia Brito (Biblioteca Nacional do Brasil)

Como citar este verbete:

Sylvia Brito. “Armada do Estreito de Magalhães (1581-1584)“. Em: BRASILHIS Dictionary: Dicionário Biográfico e Temático do Brasil na Monarquia Hispânica (1580-1640). Disponível em: https://brasilhisdictionary.usal.es/pt/armada-del-estrecho-de-magallanes-2/. Data de aceso: 13/04/2024.

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