Felícia Lobo


Nascimento: Salvador, ca. 1570.

Falecimento: Desconhecido, s. XVII.

Mulher residente em Salvador da Bahia e herdeira do poderoso clã Barros Lobo, sua importância esteve em sua meticulosa articulação dos matrimônios, casando-se duas vezes para asegurar a riqueza de sua família e traspassá-la a seus filhos, e outras duas vezes para fugir de tal estratégia, concertada longe da Bahia.

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Felícia Lobo, nascida por volta da década de 1570, foi a quarta de nove filhos do matrimônio entre Gaspar de Barros Magalhães (Portugal, ca. 1540- Salvador, ca. 1591), um fidalgo português, e Catarina Lobo (Setúbal, 1541- Salvador, século XVII), uma das três órfãs que, a pedido de Manuel de Nóbrega, “a rainha D. Catarina devia enviar cada três anos a este Estado [do Brasil]”, e que chegou em 1557 na armada de Mem de Sá “para casar com as pessoas principais da cidade” (Calmon, 1985: 368; Abreu, 1925: 413)[1]. De acordo com pesquisas recentes, a família de Felícia Lobo estava, na época de seu nascimento, no topo da hierarquia social de Salvador, formada principalmente por colonos portugueses assentados na Bahia no início da colonização e, portanto, beneficiários das primeiras doações de terras e cargos; assim como por suas esposas que, em sua maioria provenientes de famílias nobres portuguesas, tinham sido patrocinadas pela Coroa para ir ao Brasil “para que pudessem se casar com a maior decência possível, e assegurar-lhes a provisão em cargos públicos como dote matrimonial” (Costa, 1946: 108), sendo Catarina Lobo a destinatária do ofício de contador da Bahia, que seu marido exerceria a partir de 1560 (Vicente Martín, 2022: 255-263: 15-17; Calmon, 1985: 78).

Embora Felícia Lobo fosse a quarta filha deste casamento, seus irmãos mais velhos eram todos homens, o que automaticamente a tornou herdeira e transmissora da propriedade de seu pai, Gaspar de Barros de Magalhães (Calmon, 1985: 356-357). A mesma dinâmica social e econômica em que sua mãe esteve envolvida se aplicaria a ela, deixando-a como depositária dos cargos e propriedades de seu pai após sua morte, e encarregada de transmiti-los a suas filhas após o exercício e usufruto de seu futuro marido. Na verdade, os dois irmãos mais velhos de Felícia, Baltasar Lobo de Sousa e Gaspar de Barros[2], seguiram uma dinâmica familiar semelhante com suas esposas, ambas filhas de Martim Afonso Moreira – parente de Martim Afonso de Sousa (Calmon, 1985): 368) -, o primeiro recebendo os cargos de seu sogro na Índia por ter casado com a primogênita[3]; e o segundo, na ausência de seu irmão mais velho, as terras de seu sogro em Passé e os apoios informais que haviam tornado seu sogro juiz ordinário (1591) e vereador (1604), apoios que lhe permitiriam entrar na câmara como vereador, pelo menos, em 1618 (Salvado e Miranda, 2001: 264). Coube a Felícia, portanto, casar-se com alguém que, em troca de receber os bens de seu pai, contribuiria para diversificar ou, pelo menos, manter a riqueza patrimonial da família Barros Lobo, que até então estava baseada na terra e no exercício de cargos no município.

O primeiro marido de Felícia Lobo foi Pero Dias, “natural do Porto, cristão velho, 50 anos, comerciante e rico fazendeiro”, com quem se casou em 1582 a pedido de seu pai, Gaspar de Barros Magalhães (Mendonça [1618], 1925: 268). O fidalgo já havia aplicado a mesma estratégia de aproximação dos comerciantes através das duas irmãs mais novas de Felícia, Victoria e Paula de Barros, que haviam sido ligadas a Manoel de Freitas, fidalgo e comerciante português, e a Manoel de Paredes (Setúbal – Salvador, 1619), também comerciante, que só deixaria o negócio para dedicar-se a lavrar os campos de seu cunhado Gaspar de Barros, irmão de Felícia, em 1618 (Mendonça [1618], 1925: 270-271, 288-290). A carreira de Pero Dias, entretanto, não foi favorável nem a Felícia Lobo nem aos Barros Lobo: em 1591 ele foi excomungado por “incendiar a lavoura de Manoel Ferreira”, sócio de seu sogro e, embora não se conheçam outras consequências deste evento, a excomunhão levou à queda da família em termos sociais (Abreu, 1935: 334, 387). Em 1600, Felícia se declarou viúva no mesmo ato em que jurou respeitar os votos matrimoniais perante seu segundo marido, Paulo de Argolo (-…1619), cuja família, embora não estivesse envolvida em atividades mercantis, tinha mantido o exercício da lucrativa Provedoria d’Alfândega desde que o fundador do clã, Rodrigo de Argolo, a obteve após se casar com outra órfã, Joana Barbosa, em 1550 (Vicente Martín, 2022: 206-209).

Na época do segundo casamento de Felícia Lobo, seu pai Gaspar de Barros já havia falecido e o recém-chegado à família, Paulo de Argolo, apesar de ter sesmarias em Passé e combinar cargos no município (1607) com o de Provedor d’Alfândega (a partir de 1608), não representava um aumento significativo no status da família Barros Lobo. [4] Os Argolo tinham um status muito semelhante ao da família de Felícia, tendo sido Rodrigo de Argolo (…-1563) membro da expedição fundadora de Salvador de Bahia com Tomé de Sousa, e sua mãe, Joana Barbosa Lobo, irmã de Catarina Lobo e, como todas as órfãs, enviada a Salvador com a mercê do cargo de provedor para quem se casasse com ela (Calmon, 1985: 320). Matrimônios entre primos, como este entre Felícia Lobo e Paulo de Argolo, eram bastante habituais por volta de 1600 em Salvador, e sua causa não era mais do que a preservação da fortuna e influência da família comum. Neste caso, Felícia teve quatro filhos de seu primeiro marido – nada comparável aos onze que teria com Paulo de Argolo (Calmon, 1985: 319, 355) -, mas a excomunhão pública de Pedro Dias foi provavelmente o incentivo para um casamento intrafamiliar, cujo objetivo claro era evitar o desmembramento do patrimônio original dos dois fundadores, seus respectivos pais, Gaspar de Barros e Rodrigo de Argolo. Uma vez resolvido o problema, muito mais social que econômico, a morte de Paulo não deve ter causado muito pesar em Felícia, que só um ano depois se casou com Vicente Coelho e cuja ausência na documentação baiana é uma clara indicação de que seu casamento não era uma estratégia de linhagem local (Calmon, 1985: 356). Embora o vácuo documental nos impeça de fazer mais afirmações, está claro que, uma vez que Felícia cumpriu suas obrigações como filha, esposa e mãe, pouco restava para que ela fizesse por sua família em Salvador. Em meados da década de 1620, ela foi morar no Rio de Janeiro, desta vez como esposa de seu quarto e último marido, o capitão do Espírito Santo, Constantino Menelao (Calmon, 1985: 356), amigo pessoal do governador geral Diogo de Meneses e soldado ativo na expulsão dos franceses de Cabo Frio[5], com quem não teve filhos, possivelmente por causa de sua idade ou porque sua função reprodutiva já havia sido cumprida na Bahia.


[1] Annaes da Biblioteca Nacional de Rio de Janeiro, vol. 27 , Rio de Janeiro, Officinas Gráphicas da Biblioteca Nacional, 1905, p. 264.

[2] El primogénito, Jerônimo de Barros, no participó de tal dinámica, por casarse con F. de Aguiar, “que dizem era índia da terra”. (Calmon, 1985: 356)

[3] Revista do Instituto Histórico y Geografico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1901. v. 73, tomo I, p. 164.

[4] Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Vol. 34 (1908). Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, p. 63.

[5] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, ANTT, Chancelaria de D. Filipe II, Doações, L. 11, fol. 27v. Carta de Capitão e governador do Rio de Janeiro a Constantino de Menelau de 23 de novembro de 1606.

BIBLIOGRAFIA

  • Abreu. C. de (1935). Confissões da Bahia, 1591-1592. Rio de Janeiro. F. Briguiet.  Annaes da Biblioteca Nacional de Rio de Janeiro, vol. 27 , Rio de Janeiro, Officinas Gráphicas da Biblioteca Nacional, 1905, p. 264.
  • Annaes da Biblioteca Nacional de Rio de Janeiro, vol. 27 , Rio de Janeiro, Officinas Gráphicas da Biblioteca Nacional, 1905, p. 264.
  • Arquivo Nacional da Torre do Tombo, ANTT, Chancelaria de D. Filipe II, Doações, L. 11, fol. 27v. Carta de Capitão e governador do Rio de Janeiro a Constantino de Menelau de 23 de novembro de 1606.
  • Calmon, Pedro. (1985). Introdução e notas ao Catálogo Genealógico das Principais Famílias de Jaboatão, Salvador, Empresa Gráfica da Bahia, vol. 1, 1985.
  • Costa, Afonso. (1946). “As órfãs da rainha”, revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 190. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1946, pp. 105-111.
  • Mendonça, H. Furtado de. [1591] (1925). Primeira Visitação do Santo Oficio às Partes do Brasil, pelo licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações da Bahia1591-1593. Ed. Por Capistrano de Abreu. São Paulo, Paulo Prado.
  • Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Vol. 34 (1908). Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, p. 63.
  • Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Vol. 34 (1908). Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.
  • Revista do Instituto Histórico y Geografico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1901. v. 73, tomo I, p. 164.
  • Revista do Instituto Histórico y Geografico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1901. v. 73, tomo I.
  • Salvado, J. P., Miranda, S. M. (2001), Livro 1º do Governo do Brasil (1607-1633), Lisboa/Rio de Janeiro, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.
  • Vicente Martín, Irene María. (2022). Holding the Empire at Bay: The Elites of Salvador da Bahia and the Hispanic Monarchy in Brazil. Tesis doctoral. Florencia: European University Institute, 2022.

Autor:

Irene Vicente Martín

Como citar este verbete:

Irene Mª Vicente Martín (Madrid Institute for Advanced Study). “Felícia Lobo“. Em: BRASILHIS Dictionary: Dicionário Biográfico e Temático do Brasil na Monarquia Hispânica (1580-1640). Disponível em: https://brasilhisdictionary.usal.es/pt/felicia-lobo-2/. Data de aceso: 25/02/2024.

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