João Nunes Correia

Pablo Cañón (European University Institute)

Nascimento: 1543, Castro Daire

Falecimento: 1625, Madrid

Mercador.

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Comerciante cristão-novo de origem portuguesa. Desenvolveu o seu negócio principalmente na capitania de Pernambuco (Brasil), onde adquiriu grande prestígio político e social. Esteve também frequentemente envolvido como empreiteiro administrando vários dos direitos comerciais das coroas de Portugal e Castela.

João Nunes Correia, também conhecido como Juan Núñez Correa, nasceu em Castro Daire em 1543, filho de Manuel Nunes, comerciante e agricultor, e Lucrécia Rodrigues. João iniciou a sua actividade comercial em Pernambuco, tomando a seu cargo o negócio familiar na região entre 1585 e 1592, enquanto ganhava experiência para substituir o seu irmão mais velho Henrique, que assumiu a família após a sua morte em 1598. Tinha outros irmãos, Diogo, Antônio, Branca e Florença. (Almeida, 2009: 185; Carrasco Vázquez, 2002: 368-370).

Em Pernambuco, dedicou-se à venda de escravos indígenas para a produção de açúcar. Era também proprietário de dois engenhos de açúcar. O crescimento destes negócios fez de João o proprietário de uma das três maiores fortunas da capitania, avaliada em duzentos mil cruzados no auge de 1590. (Almeida, 2009: 185)

Esta posição permitiu-lhe adquirir uma posição preeminente na sociedade pernambucana, participando também em alguns projectos de expansão da Monarquia Hispânica no Brasil. Assim, juntamente com o seu irmão Diogo, João financiou o fornecimento das tropas lideradas por Martim Leitão na sua expedição de conquista à Paraíba. No entanto, isto não impediu a Inquisição de lhe virar frequentemente os olhos. Em 1592 foi detido e enviado para Lisboa acusado de judaizar. Durante o seu tempo na prisão, enviou mensagens a várias personalidades, incluindo o governador Francisco de Sousa, para tratar dos seus assuntos ou para fazer avançar os procedimentos que finalmente o tirariam da prisão, ilibado das acusações e sem o confisco dos seus bens. (Almeida, 2009: 185-186).

Gostava de respeito e consideração entre a comunidade cristã-conversa de Pernambuco. Também eram frequentes os rumores entre a sociedade pernambucana sobre comportamentos que sublinharam as acusações de judaizar contra João: que ele tinha um crucifixo junto à sanita, que não respeitava os feriados católicos, ou directamente que atuava como rabino da comunidade judaizante pernambucana. Foram abertas outras investigações contra ele, incluindo uma que o acusava de agir como um agiota (onzeneiro). (Almeida, 2009: 186).

Apesar de estar proibido de sair de Lisboa, obteve várias licenças de comércio e instalou-se em Madrid a partir de 1595. Aqui obteve autorização real para continuar a gerir o seu negócio do açúcar em Pernambuco. Em 1594 assinou, juntamente com André Lopes Pinto e Fernández Ángel, o contrato sobre o pau brasil por 6 anos. Em 1600 os empreiteiros já tinham ultrapassado o valor do contrato mas, apesar disso, este foi renovado por mais 9 anos. Em 1602 foi interrompido porque continuaram a ultrapassá-lo. Apesar disso, João renovou o contrato nesse ano juntamente com Mateus da Veiga, e novamente sozinho entre 1603 e 1606. Este último contrato foi rescindido pela coroa devido às elevadas dívidas do empreiteiro (Almeida, 2009: 187; Costa, 1985: 56). 

João Nunes Correia voltou a formar uma empresa com Lopes Pinto e Fernández Ángel, desta vez para o tráfico de escravos africanos. Para este efeito, designaram Manuel Ruiz Cartagena como o seu factor em Angola entre 1597 e 1600. Em 1603 também acedeu à sede da avería, embora também tivesse de desistir dela em 1606 devido a dívidas e numerosos conflitos com os comerciantes de Sevilha. Estes problemas deveram-se, por um lado, ao excesso de zelo da parte contratante, que exortou os seus agentes portuários a serem rigorosos com a recolha. Por outro lado, ele aparentemente aproveitou o contrato para enviar a sua própria prata da América para Sevilha sem pagar os impostos. Também alegadamente estendeu este privilégio a alguns dos seus associados portugueses.  (Caballero Juárez, 1996/1997:439-440; Studnicki-Gizbert, 2007:117).

Em 1605 obteve o contrato para a preparação da frota de prata. Este contrato também não foi isento de problemas, com frequentes tensões entre o empreiteiro e o Consulado de comerciantes de Sevilha. Este último acusou-o de ter barateado as despesas, produzindo navios de má qualidade e mal fornecidos. (Cañón García, 2017: 27-28)

No auge da sua carreira como homem de negócios, a sua rede estendeu-se de Madrid a Sevilha, Angola, e Brasil. De Lisboa, a sua relação com a proeminente família Ximenes serviu de ponte para Antuérpia e outros centros do norte da Europa. (Assis, 2007:20)

João Nunes Correia também serviu de mentor ao seu sobrinho João Nunes Saraiva, que atuou como seu agente em Sevilha a partir de 1607. Quando Nunes Correia morreu em 1625, foi este sobrinho que tomou conta da rede e do negócio que o seu tio tinha construído.  (Carrasco Vázquez, 2002: 370).

Referências bibliográficas

Almeida, A.A. (dir.) (2009). Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses. Mercadores e Gente de Trato. Lisboa: Campo da Comunicação.

Assis, A.A. (2007). Os Infortúnios e heresias do cristão-novo Diogo Nunes, senhor de engenho da Paraíba quinhentista nas malhas da Inquisição, Revista Eletrônica de História do Brasil, 9, 2, 16-29.

Caballero Juárez, J.A. (1996/1997). Los asientos de la avería de la armada de la Carrera de Indias, Ius Fugit. Revista interdisciplinar de estudios histórico-jurídicos, 5-6, 429-442.  

Cañón García, P. (2017). Las redes atlánticas de comercio con Brasil y su circulación durante el periodo de la Unión de Coronas (1580-1640) (Trabajo de Fin de Máster). Universidad de Salamanca, Salamanca.

Carrasco Vázquez, J. (2002). Comercio y finanzas de una familia sefardita portuguesa: Los Núñez Correa. En Contreras, J.; García García, B.J.; Pulido, I. (eds.). Familia, religión y negocio: El sefardismo en las relaciones entre el mundo ibérico y los Países Bajos en la Edad Moderna. Madrid: Fundación Carlos de Amberes y Ministerio de Asuntos Exteriores.

Costa, C.X. (1985). Receita e despesa do Estado do Brasil no periodo filipino (tesis de mestrado). Universidade Federal de Pernambuco, Recife.Studnicki-Gizbert, D. (2007). A Nation Upon the Ocean Sea: Portugal’s Atlantic diaspora and the crisis of the Spanish Empire, 1492-1640. Oxford: Oxford University Press.

 

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