Padre Fernão Cardim


Nascimento: Viana de Alvito, Portugal, c. 1548

Falecimento: Aldeia do Espírito Santo (atual Camaçari na Bahia), 27 de janeiro de 1625

Descrição: Jesuíta de origem portuguesa que chegou ao Brasil em 1585 e foi autor de importantes documentos para a História do Brasil entre o final do século XVI e o primeiro quarto do século XVII.

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O jesuíta Fernão Cardim é reconhecido como um dos mais atuantes religiosos na Província do Brasil, tanto pela sua trajetória quanto pelo seu legado intelectual. Nasceu em Viana de Alvito, Arcebispado de Évora, em data incerta, filho de Gaspar Clemente e sua mulher Inês Cardim, de família antiga em Portugal. Seu irmão mais velho, Jorge Cardim Fróis, ocupou vários cargos na administração da Justiça e seus outros irmãos, Lourenço Cardim e Diogo Fróis, também pertenceram à Companhia de Jesus. O primeiro, acabados os estudos e ordenado sacerdote, passou para o Brasil em 1585, mas foi morto em viagem por corsários franceses; o segundo foi lente de Teologia moral no Colégio e Universidade de Coimbra, quando na peste de Lisboa (1568-69), acudindo aos moradores contaminados, terminou infectado e morreu no hospital da cidade.

Fernão Cardim, qualificando-se em 14 de agosto de 1591 perante a mesa do Santo Ofício presidida pelo visitador Heitor Furtado de Mendonça, declarou ter quarenta e três anos, “pouco mais ou menos” [PRIMEIRA, 1925, 327]]. Teria, portanto, nascido em 1548 e entrou para a Companhia em 1566. Já era professo dos quatro votos e ministro do Colégio de Évora, quando foi designado, em 1582, para companheiro do Padre Visitador Cristóvão de Gouveia; passou a Lisboa em princípios de outubro daquele ano, onde permaneceu cinco meses, até que a 5 de março de 1583, com o governador Manuel Teles Barreto, o Visitador Cristovão de Gouveia e outros padres, embarcou para o Brasil, chegando à Bahia a 9 de maio. Veio como secretário do Visitador e ficou no Brasil após a volta do mesmo para Portugal.  Ocupou os cargos de Reitor dos Colégios da Bahia e do Rio de Janeiro. Nesse período escreveu seus textos mais conhecidos.

As obras de Cardim que se situam no primeiro plano das crônicas quinhentistas suscetíveis de servir à história da colonização são os tratados Do Clima e a Terra do Brasil, Do Princípio e Origem dos Índios do Brasil e de seus costumes, adoração e ceremoniais(c. 1584) e a Narrativa Epistolar de uma viagem e missão jesuítica. Os dois primeiros manuscritos saíram em inglês, posto que foram roubados pelos corsários que o aprisionou, sendo publicados em Londres no ano de 1625, posto que com o título A Treatise of Brasil written by a Portugall which had long lived there na coleção Purchas his Pilgrimes, Vol. IV, páginas 1289-1320. Em 1881 e 1885, respectivamente, foram publicados na cidade do Rio de Janeiro os dois escritos em português, de acordo com uma cópia manuscrita encontrada na Biblioteca Pública de Évora.  A Narrativa Epistolar imprimiu-se pela primeira vez em 1847, na Imprensa Nacional de Lisboa, por Francisco Varnhagen.

Em 1925 saíram em um único volume os três principais escritos de Fernão Cardim, precedidos de um estudo da autoria de Rodolfo Garcia, e com o título de Tratados da Terra e Gente do Brasil. A introdução e notas foram de Batista Caetano, Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia, editado pela J. Leite & Cia com 434 páginas. A 2ª edição dos Tratados compõe o volume 168 da Coleção Brasiliana, publicada em São Paulo pela Companhia Editora Nacional em 1939, contando 379 páginas e a 3a edição  foi publicada em 1978, também na Coleção Brasiliana. A primeira edição dos Tratados publicada em Portugal foi feita sob o auspício de Ana Maria Azevedo em 1997. Foi publicada nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma carta de Cardim ao Geral da Ordem, o Padre Aquaviva, escrita na Bahia em 8 de maio de 1606. A referida carta trata da difusão do manuscrito da biografia de José de Achieta escrita pelo Padre Pero Roiz (CARDIM, 1907).

Chegando ao Brasil em 1583, redigindo seus tratados depois dessa data e antes de 1601, Cardim encontrou parte das sociedades indígenas do litoral já em grande parte catequizadas. Excetuada a Narrativa Epistolar, que contém informações pessoais, os outros escritos fundam-se em grande parte nas notícias deixadas por outros observadores. Graças à Narrativa Epistolar  temos a notícia de quantos engenhos funcionavam nos vários centros da colônia, qual a sua produção em arrobas de açúcar, quantos eram os habitantes brancos, índios e negros, quais os mantimentos de que se sustentavam, as roupas de que se vestiam, os jogos e divertimentos em que se entretinham. É bem conhecido suas afirmações sobre a dolce vita da gente de Pernambuco, onde Cardim diz ter encontrado mais vaidade do que em Lisboa.

A Informação da missão do Padre Cristóvão de Gouveia às partes do Brasil, ano de 83, desta coleção de manuscritos anteriormente publicados, consiste de duas longas cartas. Estas narram as experiências de um missionário jesuíta durante sua jornada através das Capitanias da Bahia, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente, entre os anos de 1583 e 1590. Entre 1596 e 1597 conviveu com José de Anchieta no Colégio do Rio de Janeiro.

Em 1598 foi eleito pela congregação provincial para Procurador da Província do Brasil em Roma. Retornando desta missão para o Brasil, embarcou em Lisboa a 24 de setembro de 1601, na urca flamenga São Vicente. No caminho, a urca encontrou duas embarcações bem artilhadas de corsários ingleses, sob comando de Francis Cook. Foram capturados o Visitador da ordem João Madureira, o Padre Gaspar Álvares e o próprio Cardim. O Padre Madureira morreu no mar a 5 de outubro e os outros foram encarcerados na Inglaterra. Primeiramente em Plymouth, a maior cidade do condado de Devon, na Cornualha, localizada na foz do rio Plym a 310 kilometros a sudoeste de Londres. Posteriormente foram remetidos para Gatehouse, uma prisão situada em Westminster, em Londres.

Desta epopéia restou uma dezena de epistolas de Cardim, conservadas na Hatfield House, situada na parte velha da cidade do mesmo nome, no Hertfordshire. Algumas destas cartas foram publicadas na coleção Calender of Historical Manuscript of the Marquis of Salisbury, a partir de 1906. Estas cartas sairam em inglês e sofreram mutilações em diversos trechos. Os originais preservados foram escritos em latim e espanhol, até porque Cardim não falava inglês (CALENDAR, 1883-1915, vol. IX, X e XI). Libertado da prisão, Cardim retornaria ao Brasil e a sua atividade missionária.

A Ânua de 1607 pode conter também anotações do próprio Fernão Cardim, principalmente as informações referentes a Bahia, onde residia, ocupando o cargo de provincial entre os anos de 1604 e 1609 (LEITE, 1948, v. 8, 132). Seu cargo lhe dava autoridade suficiente para supervisionar e interferir na elaboração da Ânua.

Cardim já havia escrito ou interferido nas Ânuas anteriores desde que assumira o cargo de provincial da ordem no Brasil. Serafim Leite afirma que pelo menos duas ânuas foram escritas integralmente ou anotadas por Fernão Cardim: Annotationes Anuæ Brasiliæ anni 1604 (ao P. Assistente de Portugal em Roma), Baía, 12 de janeiro de 1606.  Anuæ Litteræ Brasilicæ Provinciæ, annorum 1605 et 1606 (ao P. Assistente de Portugal em Roma), Baía, 11 de abril de 1607 (LEITE, 1948, v.8, 137).

No cargo de Provincial, Cardim tomou para si a incumbência de redigir a ânua anterior de 1605-1606 e escreveu anotações para a Ânua de 1604. Não parece ter sido diferente na Ânua de 1607. A parte relativa às aldeias e ao Colégio da Bahia parecem ter sido copiadas de anotações do próprio Cardim (MAGALHÃES, 2009).

A Carta Ânua de 1607 não seria o primeiro texto de Fernão Cardim atribuído a outro autor. Em 1885, João Capistrano de Abreu publicou no Volume 1 dos Materiaes e Achegas para a História do Brasil a “Informação da Província do Brasil para nosso Padre (1585)”. Embora incluída entre as cartas e informações de Anchieta, está hoje fora de dúvida que não foi redigida pelo canarino, mas segundo todas as probabilidades, pelo Pe. Fernão Cardim. Averiguaram-se, com efeito, entre seus escritos e os de Anchieta coincidências que não devem ser puramente fortuitas. Cardim foi Reitor do Colégio da Bahia em 1624, no momento da invasão neerlandesa. Seguiu com o bispo D. Marcos Teixeira de Mendonça para a Aldeia do Espírito Santo no litoral norte da Bahia, quando a resistência local organizou a guerra brasílica contra os contingentes da Companhia das Índias Ocidentais. Por informação do Padre Antonio Vieira, na Carta Ânua de 1626, Fernão Cardim faleceu na Aldeia do Espírito Santo, Abrantes, no atual município de Camaçari, a 27 de Janeiro de 1625.


BIBLIOGRAFIA

  • ABREU, João Caspistrano de (Org.). Informações e fragmentos historicos do Padre Joseph de Anchieta, S.J.(1584-1586). In: Materiaes e achêgas para a história e geographia do Brasil, Vol. 1. Rio de Janeiro: Impr. Nacional, 1886.
  • Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Cartório Jesuítico. Maço 68. Doc. no 429.
  • CALENDAR of the Manuscripts of the Most Hon. the Marquis of Salisbury, K. G., etc. preserved at Hatfield House, Hertfordshire: Historical Manuscripts Commission. Hereford: Eyre and Spottiswoode. 1883-1915. Volumes IX, X e XI.
  • CARDIM, Fernão, S.J. Carta do Padre Provincial Fernão Cardim para o nosso Reverendo Padre Geral Cláudio Aquaviva. In: Annaes da Bibliotheca Nacional. Rio de Janeiro: Vol. XXIX, 1907. Pp. 183-184.
  • CARDIM, Fernão, S.J. Do principio e origem dos Indios do Brazil e de seus costumes, adoração e cerimônias. Rio de Janeiro: Typ. da Gazeta de Noticias, 1881.
  • CARDIM, Fernão, S.J. Tratados da terra e gente do Brasil / transcrição do texto, introd. e notas Ana Maria de Azevedo. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.
  • CARDIM, Fernão, S.J. Tratados da terra e gente do Brasil. Rio de Janeiro: J. Leite, 1925. 2a Ed. Säo Paulo: Comp. Editora Nacional, 1939
  • LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Lisboa / Rio de Janeiro: Portugália / Instituto Nacional do Livroo, 1938-1950. 10 Vol.
  • IMAGALHÃES, Pablo A. Iglesias; PARAÍSO, Maria Hilda Baqueiro. Cartas do Padre Fernão Cardim (1608 – 1618) – Dôssie Estudos Jesuíticos II. Clio. Série História do Nordeste (UFPE), v. 27.2-2, p. 206-246, 2009.
  • PRIMEIRA Visitação do Santo Officio às partes do Brasil: Denunciações da Bahia. São Paulo: 1925.   VARNHAGEN, Francisco (org.). Narrativa Epistolar de uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847.

Autor:

Pablo Iglesias Magalhães (Universidade Federal do Oeste da Bahia)

Como citar este verbete:

Pablo Magalhães. “Padre Fernão Cardim“. Em: BRASILHIS Dictionary: Dicionário Biográfico e Temático do Brasil na Monarquia Hispânica (1580-1640). Disponível em: https://brasilhisdictionary.usal.es/pt/padre-fernao-cardim-2/. Data de aceso: 13/04/2024.

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